Arquivo de novembro, 2015

26.11.2015
Do portal do JORNAL GGN
Por SERGIO SARAIVA


A ministra Cármen Lúcia do STF, atrás de sua figura de mestra sábia e rigorosa, parece ser alguém que nutre o gosto pelas frases de efeito. Conquanto dê sabor aos seus pronunciamentos, não a afasta de mal-entendidos. Riscos do estilo.

Prezada Ministra Cármen Lúcia, permita-me chama-la de mestra, já que é essa a imagem que se forma em meu imaginário quando a vejo. Lembra-me minhas melhores mestras, generosas em sabedoria e rigor e tão avaras em sorrisos. Qual não foi, portanto, minha surpresa em percebê-la como cultivadora de frases de efeito?

Confidencio que também manco de uma perna no estilo, a ironia me é irresistível e, não raro, pago o preço de ser mal interpretado. Temo que isso possa acabar por dar-se consigo em seu voto confirmando a prisão do senador Delcídio Amaral, neste 25nov2015. Riscos do estilo.

“Primeiro, se acreditou que a esperança venceu o medo. No mensalão, se viu que o cinismo venceu o medo. E, agora, que o escárnio venceu o cinismo”.

“A esperança venceu o medo” é o lema que saúda a chegada de Lula à presidência da República. A simbólica chegada de um operário ao poder. O resgate de tantos milhões da miséria, promovida pelos governos Lula, demonstra que tal esperança não era vã.

Claro me está que a senhora não está sugerindo que exista uma relação causal ou consequencial entre Lula, o assim chamado mensalão do PT, já que há outros, e as acusações que pesam sobre o senador Delcídio e que o levaram à prisão.

Não, jamais enxergar em alguém da sua elegância tal deselegância.

Entendo-a como uma manifestação de desencanto com o momento atual. Desencanto o qual eu compartilho. Porém, maldosos podem entender tal frase de forma errada. Riscos do estilo.

Como entenderam errado a sua premonição sobre Joaquim Barbosa, então, relator do chamado “Mensalão do PT”: ”Esse vai dar um salto social agora com esse julgamento”.

Sem dúvida, a senhora antevia a grande atuação do ministro Joaquim no caso. Porém, não faltaram os que se saíram com insinuações outras. Referências sub reptícias, no mínimo, à origem social humilde do ministro. Quando não, a coisas piores que isso. Riscos do estilo.

Mas voltando à sua frase no caso Delcídio Amaral:

“Primeiro, se acreditou que a esperança venceu o medo. No mensalão, se viu que o cinismo venceu o medo. E, agora, que o escárnio venceu o cinismo”.

Bons tempos aqueles durante os quais a esperança pode vencer o medo. Foi o tempo em que a senhora foi indicada pelo presidente Lula para o STF. Um dos acertos muitos que o presidente cometeu.

Depois vieram os tempos em que o cinismo venceu o medo.

De que outro modo tratar o fato de que casos como o da Operação Castelo de Areia tenham morrido sem julgamento devido a filigranas?

Que, em relação ao senador Aécio Neves, uma citação de Alberto Youssef, o delator geral e premiado da República, ao implacável juiz Moro, depois confirmada na CPI da Petrobras, tenha resultado em nada. Ainda mais quando completamente coerente com o que se conhece da chamada “Lista de Furnas”?

Onde o princípio “In Dubio Pro Societate”?

E hoje, quando o “Mensalão do PSDB” e o “Trensalão do PSDB”, um em Minas, outro em São Paulo, caminham serenamente para a prescrição.

Quando nos lembramos de Carlinhos Cachoeira, condenado e mesmo assim curtindo férias em idílicos resorts da costa baiana. E o deputado Eduardo Cunha arrotando poder, apesar de denunciado pelo Procurador Geral da República.

O escárnio venceu o cinismo.

Como não se desencantar?

Permita-me, querida mestra, juntar-me à senhora nesse desencanto e trabalhar para rechaçar qualquer mal-entendido que sua frase e seu estilo, belos, possam suscitar em corações já predispostos a isso. Não os faltam, por certo.

Com os meus devidos respeitos.

PS1: a ministra Cármen Lúcia foi a relatora no processo que alforriou biógrafos da autorização prévia de seus biografados. No seu voto, uma frase resumo ficou célebre: ”Cala boca já morreu”. Nem de longe faz jus à profundidade dos pensamentos contidos no voto – “O que não admite a Constituição é que sob o argumento de ter direito a ter trancada a sua porta, abolir-se a liberdade do outro de se expressar, pensar, criar…”. Riscos do estilo.

PS2: em relação à referência ao ministro Joaquim Barbosa –  aqui.

PS3: outras cartas ridículas podem ser lidas na Oficina de Concertos Gerais e Poesia. São ridículas todas as cartas de amor, já ensinava-nos Fernando Pessoa.
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Fonte:http://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/ministra-carmen-lucia-mestra-estilista-e-rigoros

20.11.2015
Do portal BRASIL247

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Manifestantes pró-impeachment que estão acampados no gramado em frente ao Congresso Nacional prometem não sair do local no prazo de 48 horas determinado nesta quinta-feira 19 pelos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e pelo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB); “Do lado de cá tem arma sim. Barraca é casa. E se alguém invadir, tenho direito de defender a propriedade”, disse um dos coordenadores do grupo chamado Movimento Patriota, Felipe Porto

247 – Os manifestantes anti-Dilma que estão acampados no gramado em frente ao Congresso Nacional prometem não sair do local no prazo de 48 horas, definido após uma reunião entre o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), e os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), nesta quinta-feira 19.

De acordo com um dos coordenadores de um grupo chamado ‘Movimento Patriota’, Felipe Porto, vários dos integrantes do “Acampamento Patriota” estão armados e não pensam em deixar o local.

“Vocês acham que alguém aqui tem medo? Vi gente daqui ligando para a família e dizendo que não sabe se volta. Aqui tem patriota, é sangue verde-amarelo. Tem gente disposta a morrer pelo Brasil”, disse. “Do lado de cá tem arma sim. Barraca é casa. E se alguém invadir, tenho direito de defender a propriedade”, assegurou, segundo reportagem do Globo.

Segundo ele, entre os membros do movimento que representa – que defende uma “intervenção popular” capaz de sitiar os três poderes, para que as “forças legalistas”, como forças armadas e polícias militares, montem um governo provisório e convoquem novas eleições, com cédulas em papel, sem o uso da urna eletrônica – estão militares, colecionadores de armas, ex-policiais e ex-militares, que possuem o direito de portar armas de fogo.

Porto disse, ainda, que o Acampamento Patriota está instalado bem em frente a um outro acampamento, este ligado a CUT, o que tem gerado “um cenário de guerra” entre eles. “O cenário de guerra está armado. Pode acontecer uma carnificina”, destacou.
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Fonte:http://www.brasil247.com/pt/247/brasilia247/206026/Golpista-diz-que-grupo-est%C3%A1-armado-e-se-recusa-a-sair-de-acampamento.htm

19.11.2015
Do blog PRAGMATISMO POLÍTICO,18.11.15
Por André Falcão*

vale mariana MG tragédia capitalismo

Era uma vez uma empresa de nome poético como a região onde fazia morada: Vale do Rio Doce. Considerada a maior empresa de mineração do mundo, pertencia a um país chamado Brasil. Um dia, um príncipe, que reinava naquele país embora o regime não fosse oficialmente monárquico, tanto que nele havia um parlamento com vários representantes do povo, mas que ao povo não representavam, salvo uma minoria bastante minoritária, entendeu que o tal do Brasil, que estava devendo a deus e ao mundo, desrespeitado e desacreditado internacionalmente, deveria vender tudo o que tinha. Seu argumento, defendido pela grande mídia que lhe era subserviente, entre outras razões porque desfrutavam de muitas benesses, e deviam satisfação ao grande patrão, chamado EUA, todos escravos voluntários do seu deus, o capitalismo, era o de que o Brasil necessitava vender o que tinha para melhorar o emprego, educação, saúde, segurança, agricultura, representados pelos cinco dedos da mão de Sua Majestade.

Leia aqui todos os textos de André Falcão

Aí então o príncipe passou a vender o que via pela frente, inclusive a VRD. Vendia muito barato. E ainda ajudava os interessados, emprestando-lhes o dinheiro do país, em condições de pai para filho, para que esses comprassem o que o país oferecia. Alguns dizem que assim foi porque o príncipe era ruim de matemática. Outros, que houve muita ladroagem, comprovadas ou comprováveis, mas não deve ser verdade, já que as denúncias eram arquivadas pelo assessor geral do príncipe, que certamente o fazia porque deviam ser descabidas. A própria polícia do príncipe trabalhou muito pouco naqueles oito anos de reinado: apenas 48 operações, sinal de que estava tudo certo. Porém, os problemas do país, mesmo com a liquidação promovida, agravaram-se, inclusive aqueles dos cinco dedos.

Enquanto isto, a Vale do Rio Doce, antes orgulhosa de seu nome, homenagem às águas que eram e davam vida, sob novos donos entendeu de rebatizar-se, excluindo-o. Passou a chamar-se apenas Vale.

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O que não se esperava, salvo para aqueles que conhecem bem de perto o deus capitalismo, é que a nova Vale iria extirpar o rio também da vida de toda a população daquela região daquele país. Sob os auspícios do seu deus, o Capitalismo, matou o rio Doce. Morreram também o Claudio, o Sileno, o Waldemir, a Emanuely (cinco aninhos, ela tinha), o Thiago, o Marcos Xavier, o Marcos Aurélio, a Maria Elisa, a Maria das Graças, o Antonio… Já são onze. Desaparecidos outros tanto. Foi no Brasil, essa tragédia. No Brasil.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político
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Fonte:http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/11/acabou-se-o-que-era-doce.html