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09.08.2019
Do portal OPEN DEMOCRACY(espanhol)*, 08.08.19
Por José Luís Fiori/William Nozaki

A única coisa que incomoda os protagonistas desse escândalo é o fato de que sua “conspiração” foi divulgada e que todos entenderam quem é o verdadeiro poder por trás da chamada “República de Curitiba”.

Donald Trump participa de uma coletiva de imprensa conjunta com Jair Bolsonaro no Rose Garden da Casa Branca em Washington D.C., Estados Unidos, em 19 de março de 2019. Agência de Notícias Ting Shen / Xinhua / PA Images. Todos os direitos reservados

É comum falar de “teoria da conspiração” toda vez que alguém revela ou denuncia práticas políticas ou articulações “irregulares”, ocultas do público em geral e conhecidas apenas por pessoas de dentro ou por pessoas com mais conhecimento. E quase sempre, quando essa expressão é usada, tem o propósito de desqualificar a queixa que foi feita, ou a pessoa que tornou público o que estava destinado a esconder na sombra ou no esquecimento da história.

Mas, de fato, mais rigorosamente, não existe uma “teoria da conspiração”. O que existem são “teorias do poder” e “conspiração” é apenas uma das práticas mais comuns e necessárias dos envolvidos na luta política. diariamente pelo poder em si e essa distinção conceitual é muito importante para quem pretende analisar a situação política nacional ou internacional, sem medo de ser acusada de “conspiração”.

E este é um ponto de partida fundamental para a pesquisa que pretendemos fazer sobre qual foi o verdadeiro papel do governo dos Estados Unidos no Golpe de Estado 2015/2016 e na eleição do Capitão Bolsonaro “, em 2018. Neste caso , não há como não seguir o caminho da chamada “conspiração”, que culminou na ruptura institucional e na mudança do governo brasileiro.

E nossa hipótese preliminar é que a história dessa conspiração começou na primeira década do século 21, durante o “mandarinato” do vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney, embora tenha tomado outra direção e velocidade desde a presidência de Donald Trump e a formulação de sua nova “estratégia de segurança nacional”, em dezembro de 2017.

A princípio foi uma surpresa, mas hoje todos já entenderam que essa nova estratégia abandonou os antigos parâmetros ideológicos e morais da política externa dos Estados Unidos, defendendo a democracia, os direitos humanos e o desenvolvimento econômico, e assumiu explicitamente um projeto para construir um império militar global, com a fragmentação e multiplicação de conflitos, e o uso de várias formas de intervenção externa, em países que se tornam alvos americanos.

Seja através da manipulação inconsciente dos eleitores e da vontade política dessas sociedades; quer através de novas formas “constitucionais” de golpe de Estado; seja através de sanções econômicas cada vez mais extensas e letais capazes de paralisar e destruir a economia nacional dos países afetados; ou, finalmente, através das chamadas “guerras híbridas” destinadas a destruir a vontade política do adversário, usando informação em vez de força, sancionando mais do que bombardear e desmoralizar intelectualmente do que torturar.

Deste ponto de vista, é interessante acompanhar a evolução destas propostas nos documentos dos Estados Unidos em que se definem os objetivos estratégicos do país e suas principais formas de ação.

Assim, por exemplo, no Manual de Treinamento das Forças Especiais dos EUA,  preparado para as Guerras Não Convencionais, publicado pelo Pentágono em 2010, já está explicitamente declarado que “o objetivo dos EUA neste tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas dos poderes hostis, desenvolvendo e apoiando as forças internas de resistência para alcançar os objetivos estratégicos dos Estados Unidos “.

Com o reconhecimento de que “num futuro não muito distante, as forças dos EUA participarão predominantemente em operações de guerra irregulares”

Quando, na história recente, o Brasil entrou no radar desses novos padrões de segurança e defesa dos EUA

Essa orientação ficou ainda mais clara no documento que primeiro definiu a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA da administração Trump, em dezembro de 2017. Lá você pode ler com todas as letras que no “golpe à corrupção” a desestabilização dos governos de países que são “concorrentes” ou “inimigos” deve ter um lugar central dos Estados Unidos.

Essa proposta foi detalhada no novo documento sobre a Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, publicado em 2018, que afirma que “uma nova modalidade de conflito desarmado tem tido uma presença cada vez mais intensa no cenário internacional com o uso de práticas econômicas predatórias, rebeliões sociais, ataques cibernéticos, notícias falsas e métodos de  anticorrupção ”.

É importante ressaltar que nenhum desses documentos deixa a menor dúvida de que todas essas novas formas de “guerra não convencional” deveriam ser usadas – principalmente – contra estados e empresas que desafiam ou ameaçam os objetivos estratégicos dos EUA.

Agora, neste ponto de nossa investigação, vale a pena fazer a pergunta fundamental: quando foi, na história recente, que o Brasil entrou no radar desses novos padrões de segurança e defesa dos EUA? E aqui não há dúvida de que há muitos fatos e decisões que o Brasil fez, especialmente depois de 2003, como a política externa soberana, a liderança autônoma do processo de integração sul-americana, ou mesmo sua participação no bloco econômico dos BRICS, liderado pela China.

Mas não há dúvida de que a descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, em 2006, foi o ponto de virada em que o Brasil mudou sua posição na agenda geopolítica dos Estados Unidos. Apenas leia o Blueprint for a Secure Energy Future (Plano para um Futuro Seguro de Energia), publicado em 2011 pelo governo Barack Obama, para ver que na época o Brasil já ocupava uma posição de destaque em três das sete prioridades estratégicas da política energética dos EUA: ( i) como fonte de experiência para a produção de biocombustíveis; (ii) como um parceiro chave para exploração e produção de petróleo em águas profundas; (iii) como um território estratégico para a prospecção no Atlântico Sul.

A partir desse momento, não é difícil rastrear e conectar alguns eventos, especialmente desde que o governo brasileiro promulgou, em 2003, sua nova política de proteger os produtores nacionais de equipamentos de ex-fornecedores estrangeiros da Petrobras, como era o caso, por exemplo, da empresa norte-americana Halliburton, a maior empresa de serviços petrolíferos do mundo, e um dos principais fornecedores internacionais de sondas e plataformas marinhas, administrada até o ano 2000 pelo próprio Dick Cheney, que Ele se tornaria o mais poderoso vice-presidente da história dos Estados Unidos de 2001 a 2009.

A Odebrecht, a OAS e outras grandes empresas brasileiras entram nessa história desde 2003, exatamente no lugar desses importantes fornecedores internacionais que perderam espaço no mercado brasileiro.

Mas nunca houve dúvida de que, em 2006, você tem reservas de petróleo no pré-sal em 2006, o que é um ponto de virada no Brasil, ou o Brasil mudou sua posição na agenda geopolítica dos Estados Unidos. Acabei de ler o Plano para um Futuro Seguro Energético, publicado em 2011 pelo governo Barack Obama, para ver que na época  o Brasil ocupa uma posição de destaque em três prioridades estratégicas dos EUA na política energética: (i) como fonte de experiência para uma produção de bicombustíveis; (ii) como um parceiro chave para exploração e produção de petróleo em águas profundas; (iii) como território estratégico para uma prospecção fora do Atlântico Sul.

A partir desse momento, não é difícil rastrear e conectar quaisquer eventos, especialmente desde que o governo do Brasil promulgou, em 2003, sua nova política de proteger produtores nacionais de equipamentos de antigos fornecedores estrangeiros da Petrobras, como era ou caso, por exemplo, a norte-americana Halliburton, uma grande empresa de serviços petrolíferos do mundo, e um dos principais fornecedores internacionais de sondas e plataformas de marinhas, administrados por Dick Cheney, de 2000 anos, que ele se tornaria ou mais poderoso vice-presidente história dos Estados Unidos de 2001 a 2009.

Para a Odebrecht, OAS e outras grandes empresas brasileiras desde 2003, não há lugar para importantes fornecedores internacionais que perderão espaço no mercado brasileiro.

Agora, retornando ao eixo central de nossa investigação e nosso argumento, é bom lembrar que esse mesmo Dick Cheney, que veio do mundo do petróleo e desempenhou um papel decisivo como Vice-Presidente de George W. Bush, foi quem concebeu e iniciou o processo. chamado de “guerra ao terrorismo”, com o consentimento do Congresso dos EUA para iniciar novas guerras, mesmo sem aprovação parlamentar; e, o que é mais importante para os nossos propósitos, foi capaz de aprovar o direito de acesso a todas as operações financeiras do sistema bancário mundial, praticamente sem restrições, incluindo o antigo segredo bancário suíço e o sistema de pagamentos europeu SWIFT.

A presidência da República, os ministros de Estado e os líderes da Petrobras foram há muito tempo objeto de escuta telefônica e espionagem.

Portanto, não é absurdo pensar que foi nesse caminho que o Departamento de Justiça dos EUA teve acesso à informação financeira que foi então transmitida às autoridades locais dos países que os Estados Unidos decidiram desestabilizar com campanhas seletivas “contra a corrupção”.

No caso brasileiro, pelo menos, foi após esses eventos que a agressão e o roubo de informações geológicas confidenciais e estratégicas da Petrobras ocorreram em 2008, exatamente dois anos após a descoberta das reservas de petróleo do pré-sal no mesmo período, ano em que os Estados Unidos reativaram sua 4ª Frota Naval de Monitoramento do Atlântico Sul.

E foi no ano seguinte, em 2009, que o intercâmbio entre o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e os membros do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal brasileira começou a tratar da lavagem de dinheiro e “lutar contra corrupção ”, em reunião que resultou na iniciativa de cooperação denominada Projeto Ponte, da qual participou o então juiz Sérgio Moro.

Mais tarde, em 2010, a Chevron negociou discretamente, com um dos candidatos para a eleição presidencial brasileira, mudanças no arcabouço regulatório do pré-sal, uma “conspiração” que veio à tona com vazamentos do Wikileaks, que eventualmente se tornou um projeto de lei apresentado e aprovado pelo Senado brasileiro. E três anos depois, em 2013, ficou claro que a presidência da República, os ministros de Estado e os líderes da Petrobras estavam há muito tempo sujeitos à escuta telefônica e à espionagem, como revelaram as acusações de Edward Snowden.

No mesmo ano, o embaixador dos Estados Unidos que acompanhou o golpe de Estado do Paraguai contra o presidente Fernando Lugo foi transferido para a embaixada do Brasil. E foi exatamente após essa mudança diplomática, em 2014, que começou a Operação Lava Jato, que foi instigada a decisão de investigar as recompensas pagas aos diretores da Petrobras, exatamente a partir de 2003, deixando de lado os antigos fornecedores internacionais. no exato momento em que a empresa estava concluindo as negociações com a Halliburton sobre a entrega das plataformas P43 e P48.

Se todos esses dados estivessem corretamente conectados, e se nossa hipótese for crível, não é de surpreender que, após cinco anos do início desta Operação Lava-Jato, os vazamentos publicados pelo site The Intercept Brasil, relatem o viés dos promotores e do principal juiz envolvido nesta operação e causaram uma reação súbita e extemporânea a dois dos principais réus desta história que praticamente se esconderam, praticamente nos Estados Unidos.

Provavelmente em busca de instruções e informações que lhes permitissem sair do caminho e fazer com seus novos acusadores o que sempre fizeram no passado, usando as informações transmitidas para destruir seus oponentes políticos.

No entanto, o pânico do ex-juiz e sua falta de preparação para lidar com a nova situação fizeram com que ele agisse de maneira apressada, solicitando uma licença ministerial e viajando pela segunda vez para os Estados Unidos, tornando este local público na cadeia de comando de uma operação que parece ter sido a única operação de intervenção internacional bem-sucedida, até agora, pela dupla John Bolton e Mike Pompeo, os dois “terroristas suicidas” que comandam a política externa do governo de Donald Trump. Uma operação comandada pelos americanos e endossada pelos militares brasileiros.

A única coisa que os incomoda agora é o fato de que sua “conspiração” foi tornada pública

Portanto, se nossas hipóteses estivessem corretas, não há possibilidade de que as pessoas envolvidas neste escândalo sejam denunciadas e julgadas imparcialmente, porque todos os envolvidos sempre tiveram conhecimento total e aprovaram as práticas ilegais do ex-juiz e seu “promotor auxiliar”, práticas que foram decisivas para a instalação do Capitão Bolsonaro na Presidência da República.

A única coisa que os incomoda neste momento é o fato de que sua “conspiração” foi divulgada e que todos entenderam quem é o verdadeiro poder por trás da chamada “República de Curitiba”.

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NOTA: A matéria acima foi traduzida pelo Google Tradutor.

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Fonte:https://www.opendemocracy.net/es/democraciaabierta-es/conspiraci%C3%B3n-y-corrupci%C3%B3n-una-hip%C3%B3tesis-probable/

08.07.2019
Do portal JORNAL GGN, 07.07.19
Por Luis Nassif

Não há tergiversação possível: ou se é a favor da lei e das instituições, ou se é apenas um vociferante membro da torcida, da plebe ignara e inculta que ameaça invadir os palácios.

As novas revelações da Vazajato, pela Folha, reforçam os pontos centrais dos outros vazamentos (aqui):

1.     O não cumprimento dos acordos de delação.

O acordo de delação exige a mútua confiança de ambas as partes. O réu delata se houver o compromisso do procurador em cumprir o combinado. A legislação é clara sobre os termos do acordo.

Um trecho do acordo mostra que a Lava Jato não seguia nenhum princípio legal nem ético.  Tratava com bandidos e não obedecia sequer a ética dos bandidos, que é o cumprimento do combinado.

2.     O uso do vazamento como instrumento político.


Esse trecho é fantástico. Tema da maior gravidade – a crise política e humanitária da Venezuela -, na qual países mais responsáveis procuram fazer a mediação, potências globais interferem, a alta diplomacia internacional se digladia. E um procurador regional do Paraná, deslumbrado, messiânico, provinciano, imaturo a ponto de ser completamente controlado pelo juiz, tendo nas mãos um inquérito policial, decide o que é bom ou ruim para os cidadãos venezuelanos.

É a subversão total de toda ordem institucional e das atribuições dos poderes.

3.     Comando total de Sérgio Moro, exercido através de Dallagnol.

Depois das discussões, Dallagnol vai até Moro pedir a bênção. E volta com luz verde, comprovando mais uma vez quem chefiava o esquema.

4.     Cooperação informal ilegal com autoridades de outros países.

Fica claro na combinação dos procuradores, sobre como atual com a ex-Procuradora Geral da Venezuela, demitida por Maduro. Acolhem a procuradora, combinam compartilhar delações, atuações políticas. E ainda entregam o vazador mor do grupo, um tal de CF, que a Folha presume ser Carlos Fernando.

Leia também:  Moro aparelha Polícia Federal para retaliar Glenn Greenwald, dizem deputados

5. Vazamentos praticadas pelas três instâncias do MPF

Nesse trecho, planeja-se abertamente o vazamento. E mencionam-se fontes internas que poderiam estar por trás dos últimos vazamentos, tratando como se fosse algo natural. Não afirmam que a Cooperação Internacional da PGR vazou, mas apontam com naturalidade essa possibilidade.

Conclusão

Não há um advogado, juiz ou procurador sério que aceite endossar essas ilegalidades. Apenas um ou outro jurista ou Ministro, que abdicou do direito em favor do proselitismo político, ou que já entrou até o meio do pântano da Lava Jato, sem possibilidade de retorno, esboça alguma defesa desses absurdos.

Nesse momento, o silêncio é aval para a desmoralização final do Supremo, do Ministério Público, do Judiciário em geral. Não há tergiversação possível: ou se é a favor da lei e das instituições, ou se é apenas um vociferante membro da torcida, da plebe ignara e inculta que ameaça invadir os palácios.

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Fonte:https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-de-como-a-lava-jato-nao-seguia-sequer-a-etica-dos-bandidos-por-luis-nassif/

18.06.2019
Do portal da Agência Carta Maior,17.06.19
Por Joaquim Palhares 
 
Desmascarada a ‘República de Curitiba’, a questão crucial agora é revigorar a democracia e repactuar um projeto de desenvolvimento soberano, em meio à desordem do mundo neoliberal
 
Tornou-se límpido como água de mina: a engrenagem posta em movimento em 2014 com o nome de Lava Jato, autodenominada ‘a maior investigação de corrupção da história, servia de biombo a uma farsa jurídica, cujos detalhes emergiram agora de forma devastadora nos diálogos de bastidores da operação revelados pelo Intercept. 
Gravações amplamente compartilhadas pela sociedade nesse momento soam como diálogos de um filme de Costa Gavras, o mestre do cinema político.
Um comando secreto, liderado por um juiz de província americanófilo e direitista, arquiteta a prisão do maior líder popular da história brasileira, que encabeça a corrida à presidência da República e precisa ser detido para não levar a esquerda ao poder pelo quinto mandato consecutivo.
Todos sabiam que era assim. Mas agora a hipocrisia e o cinismo perderam o chão das aparências.
Mais que um filme, a realidade política dos últimos cinco anos avulta aos borbotões para desmentir a narrativa dominante. Aliás, como sempre alertaram os críticos da República de Curitiba.
Entre eles perfila Carta Maior, que reunira num Especial (Dossiê) uma panorâmica das perdas e danos destes cinco anos e dos desafios que eles colocam ao resgate progressista da nação brasileira.
Não será uma empreitada para nostalgias ou ilusões.
Estamos diante de um dos mais fulminantes processos de desmonte econômico de um país com simultânea desidratação do seu sistema democrático o que, vale dizer, obstruiu os já frágeis canais de participação da vontade popular sobre os destinos da sociedade, destruindo o nosso bem mais precioso. A nossa soberania.
É uma reprise do que já aconteceu em Cuba, Chile, Irã, Nicarágua, Cuba, Afeganistão, Iraque, Síria, Iemen, Somália, Líbia, Níger e Venezuela, em todos os casos fortemente apoiados pela grande imprensa americana e seus parceiros nacionais. 
Durante um quinquênio, um moto-contínuo de sobressaltos cuidadosamente injetados na opinião pública com o denso lubrificante de um jornalismo cúmplice, colocou a democracia e a subjetividade nacional de joelhos.
A quinta maior demografia do planeta, oitava maior economia do mundo, detentora das maiores reservas de petróleo descobertas no planeta no século XXI, foi sacudida e fragilizada até a prostração.
Restou uma montanha desordenada de reputações em ruína. A ociosidade industrial alia-se ao desemprego alarmante. O empobrecimento que invadiu os lares da classe média trouxe de volta a fome às periferias. A fragilização do Estado alavanca um voraz processo de desemancipação social com a supressão de direitos e da autoestima, fechando o cerco da orfandade social e nacional.
A deriva deixa clara uma determinação de estripar todas as dimensões da soberania, sem a qual não há projeto de desenvolvimento, nem democracia que se sustentem.
Nos dentes da engrenagem expropriadora foram mastigados o PT e demais organizações progressistas.
Estatais e bancos públicos que dão escala econômica e estratégica às políticas de interesse nacional definham.
Grandes empresas que detém a expertise necessária aos projetos estruturantes de infraestrutura agonizam em desmanche criminoso. 
O país aguarda ansioso que o extraordinário trabalho jornalístico do Intercept revele os conteúdos dos acordos de leniência assinados por “ livre e espontânea pressão “ e produzidos ao arrepio da Lei e das devidas autorizações dos órgãos públicos do Estado brasileiro e sob forte coação prisional.
O posicionamento internacional do país amesquinhou-se num alinhamento servil aos ditames norte-americanos.
Uma afinada aliança entre a mídia, a escória, o judiciário e a plutocracia local e global liquidou o abrigo de identidade entre o povo e a nação e legitima a extinção dos laços e obrigações da nação em relação ao seu povo, sobretudo os mais humildes.
O país todo foi ardilosamente colocado sob a regência de um único poder ordenador: o mercado, sobretudo o seu braço financeiro internacionalizado.
O governo age como uma tropa de ocupação orientada à predação e ao saque do próprio povo. 
O barco convulsionado flerta com o naufrágio sob a batuta de um comodoro desequilibrado, adestrado em tuitar tagarelices e insultos, mas incapaz de liderar e construir.
Sua missão é outra.
Bolsonaro foi escolhido pela desastrosa aptidão para rebaixar, agredir, destruir, desarticular e promover a desordem que torna um povo órfão e a nação desossada.
Tombam um a um todos os contrapontos institucionais, sociais e econômicos erguidos secularmente como limite à ganância omnívora da elite que produziu uma das sociedades mais desiguais do planeta, aqui, 28% da riqueza está nas mãos do 1% dos endinheirados, contra média mundial de 22%, lembra Thomas Piketty. 
O alvo zero da gula atual é a nossa soberania, sem bombas, sem tropas adotam o modelito da Guerra Híbrida, contra as nações e o Lawfare contra personalidades.
Lula e a Carta Cidadã de 1988 são os grandes obstáculos. A nossa constituição nunca foi aceita pelas elites, promulgada em 5 outubro de 1988, desde logo foi atacada, principalmente durante os oito anos de governo FHC.
A vitórias de Lula e do PT, em 2002, 2006, 2010 e 2014 jamais foi aceita pelo conservadorismo e pelo grande capital nacional e internacional.
 A Constituinte que encerrou a ditadura jamais foi digerida pelos conservadores por ter nascido a contrapelo da ascensão neoliberal no mundo, graças à força acumulada pelas ruas na luta por democracia .
Destruí-la dá sentido funcional à aberração elevada ao poder em 2018.
Lembremo-nos, ‘desconstitucionalizar’ a economia era a pedra angular também do programa presidencial do tucano Geraldo Alkmin, cujo ‘posto Ipiranga’ chamava-se Pérsio Arida.
Depois das quatro tentativas fracassadas do PSDB de completar o serviço iniciado por Fernando Henrique Cardoso, e na iminência de um novo revés nas urnas de 2018, decidiu-se convocar as estrebarias.
Os diálogos agora revelados pelo Intercept mostram a ação coordenada das cocheiras nesse mata-leão no pescoço da história.
A ressignificação constrangedora da palavra Brasil no ambiente internacional, resulta da ecumênica percepção, agora documentada, de uma regressão a galope minuciosamente planejada e imposta a uma sociedade aturdida e manipulada por quem deveria informa-la e esclarece-la com isenção.
Antes de ser a profilaxia ética avocada por torquemadas, descortina-se assim de forma cristalina a ação de um “condomínio “ criminoso e demolidor, formado pela aliança da mídia com a escória, o dinheiro, o sistema jurídico, setores militares e o Departamento de Estado norte-americano.
É isso que mostram os diálogos prontos para o filme do Costa Gravas revelados agora pelo Itercept.
Não há espaço para a ingenuidade.
Nada disso se faria sem a cobertura da espionagem, o respaldo militar e econômico do grande interesse norte-americano em subjugar a maior economia ocidental em luta pelo desenvolvimento, fortalecida pela descoberta das gigantescas reservas do pre-sal e do horizonte de soberania econômica e tecnológica que elas propiciam.
O intento do saque devastador requer ilegalidade e violência.
A Lava Jato agiu cirurgicamente como um pistoleiro de aluguel.
Desencadeou a emboscada no lusco-fusco das fragilidades quando um ciclo do desenvolvimento havia se esgotado e outro teria que ser repactuado.
Entre as escolhas disponíveis a supremacia do mercado sobre os interesses sociais e nacionais dificilmente teria a preferência das urnas.
Como não a teve desde 2002.
E as pesquisas indicavam não teria também em 2018.
É forçoso reconhecer, porém, o condomínio golpista foi bem sucedido, pelo menos até aqui.
O desmonte da nação pode ser documentado em múltiplas frentes, erguendo uma muralha de entulho que secciona as linhas de passagem entre o presente insuportável e a reinvenção do futuro brasileiro.
O conjunto coloca obstáculos estruturais novos às forças democráticas e progressistas determinadas a resgatar a soberania da nação e repactuar o seu desenvolvimento.
A nostalgia do ciclo anterior não serve de resposta às novas cobranças da história.
O mundo vigente entre 2002 e 2014 não existe mais.
A geopolítica foi alterada; a globalização está em xeque; a agenda conservadora é uma força afluente destrutiva e violenta.
Tentar repetir o ciclo exitoso anterior, nos mesmos moldes, apenas reafirmará o seu esgotamento em um novo colapso antecipado, possivelmente arrematado por um golpe ainda mais violento.
A determinação profunda desse acirramento dos conflitos não pode ser subestimada.
A humanidade toda sofre os abalos da crise de esgotamento do projeto neoliberal imposto a um planeta esmagado em desequilíbrios sociais e ambientais sistêmicos.
O vórtice da tempestade é a desordem financeira.
Um estoque sem igual de riqueza fictícia arde nas mãos dos mercados em todo o mundo em busca de abrigos de mais valia para proceder à transfusão capaz de evitar a desvalorização abrupta, da qual 2008 foi um prenúncio.
Reconduzir a riqueza financeira aos trilhos da produção e da emancipação social é um dos novos requisitos da soberania para o desenvolvimento. 
O objeto em questão empenha-se neste momento, aqui e em todo mundo, a uma dança das cadeiras ensandecida.
Não há contrapartida de lastro material que acomode a monstruosa ciranda especulativa.
A montanha de direitos de saque sobre a riqueza planetária equivale hoje ao dobro do PIB mundial: US$ 170 trilhões contra US$ 80 trilhões, respectivamente.
E não para de crescer.
Em contrapartida, a fatia do PIB norte-americano destinada ao trabalho, por exemplo, caiu de quase 69%, antes de crise de 2008, para 66,4% agora.
Que isso ocorra no capitalismo mais forte do planeta, onde a economia cresce há dez anos e ostenta uma taxa de desemprego (visível) a mais baixa em meio século (3,6%), só faz confirmar a atual natureza desagregadora da lógica dos livres mercados que se quer impor aqui a ferro e fogo.
A incerteza, a angústia, o desemprego embutidos nesse paradoxo que asfixia a classe média do campo e das cidades, explicam o crescimento da xenofobia, do nacionalismo, dos líderes extremistas e do vento fascista que sopra em todas as latitudes.
As forças democráticas e progressistas brasileiras não podem subestimar as responsabilidades organizativas e programáticas que esse divisor coloca.
A principal delas é recuperar a coerência entre o projeto de democratização social para o Brasil e a contrapartida de aglutinação dos recursos necessários à retomada do investimento produtivo, o que requer o enfrentamento do poder financeiro, só viável com a nucleação do poder popular que gere a força e o consentimento amplo para resgatar a soberania e a credibilidade à luta pelo desenvolvimento neste longo amanhecer do século XXI.
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